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15 de nov. de 2012

3 de nov. de 2012


Dia 12 de novembro, segunda-feira, teremos nova edição da oficina de Tabuleiro Múndi, agora com o jogo Surakarta, da Indonésia, que tem regras inusitadas como as peças que andam em looping pelo tabuleiro.

Lembrando que esta oficina é para interessados em jogos e crianças a partir de 8 anos.
Aguardo vocês!
Adriana Klisys

Horário: das 19:30às 21:30h
Valor: R$60,00 (no site www.caleido.com.br) e R$70,00 (no local do evento)
Local: Rua Dr. Cícero de Alencar, 69 - Butantã - São Paulo - SP
Tel: (11) 3726-8592 - Cel: (11) 99659-6382

19 de jun. de 2012

Jogo da Onça ( Estadinho)


[Clique na imagem p/ ampliá-la]

"O Jogo da Onça é o único jogo de tabuleiro difundido entre parte da população indígena brasileira de que se tem registro. Conheci-o por meio da pesquisa “Jogos Indígenas do Brasil”, promovida pela Origem , que identificou as seguintes etnias Indígenas detentoras do jogo: os Manchineri, no Acre; Guaranis, na Ilha do Cardoso (sul do Estado de São Paulo); Bororos, no Mato Grosso. Logo na sequência, compartilhando esse jogo com os grupos com os quais trabalhava, acabei descobrindo que parte dos Ticunas, da Amazônia, e algumas pessoas do Pará e Sul de Minas o conheciam. Em geral, jogavam em tabuleiros riscados no chão, usando sementes ou pedras como peças.

Embora seja um jogo difundido pela população indígena nacional, não podemos considerá-lo genuinamente brasileiro, já que sua estrutura provém da família de jogos da Índia e do Sri Lanka, conhecida como "cordeiros e tigres". Estes, por sua vez, são jogados em tabuleiros muito parecidos com o milenar alquerque. Vê-se, portanto, que essa família de jogos é internacional, tem membros em diversos cantos do mundo. Provavelmente os índios brasileiros já o conheciam antes do descobrimento, por intermédio dos incas, no Peru, que tinham um jogo similar, com o nome de "puma e carneiros".

A peculiaridade desse jogo para dois participantes é que os adversários disputam em condições diferentes: um é o mais forte (onça), porém está em menor número (apenas um), e outro é mais fraco (cachorros), mas está em maior número (catorze).

O objetivo da onça é capturar cinco cachorros, e o dos cachorros, imobilizar a onça, cercando-a de forma que não tenha saída.

Inicia-se o jogo com os cachorros dispostos nas intersecções das três primeiras linhas horizontais da base do tabuleiro, opostas ao triângulo do extremo superior, e a onça na intersecção central, ladeada por dois cachorros à direita e dois à esquerda. Os dois jogadores podem andar uma casa de cada vez, escolhendo qualquer um dos pontos adjacentes do tabuleiro.

A onça realiza a captura do cachorro cada vez que salta sobre eles, retirando a peça saltada do tabuleiro. Pode, como na dama, realizar saltos duplos ou triplos. Os cachorros imobilizam a onça quando esta não tem mais para onde ir.

Esta é uma dentre as tantas versões de regras da família de jogos Cordeiros e Tigres. O bonito neste jogo, e em todos os outros, é compartilhar as regras ou, em determinados contextos, desobedecê-las deliberadamente a elas, dando origem a outras jogadas. O livre desfrute do jogo e a permeabilidade que ele tem às mudanças é que o mantêm vivo. Afinal, não faz parte da vida a flutuação das regras?

A pergunta: “vamos jogar?” soa como um convite: - vamos inventar novas regras? Ou para recuperar as antigas e inventar as futuras. E assim concebemos novos jogos. "

( Trecho do livro: Quer Jogar? Edições Sesc SP - Adriana Klisys e Carlos Dala Stella)

5 de jun. de 2012

Consumir a vida com consumo?



 
Há relatos de que certa vez, diante de uma carroça de quinquilharias que vendia de tudo, o filósofo grego Sócrates (469-399 a.C.) teria dito, com um largo sorriso satisfeito: “De quanta coisa na vida eu não preciso!”.

Se estivesse vivo hoje e pudesse passear por um shopping center, o filósofo ficaria ainda mais surpreso com a maneira como consumimos além do essencial. Às vezes é preciso um olhar estrangeiro para nos acordar dos sonhos de consumo em que vivemos atualmente. Será que precisamos de tanta coisa? Como foi que caímos nesta armadilha que associa felicidade ao poder de compra? Slogans publicitários como “o mundo trata melhor quem se veste bem” mostram claramente que não importa o que a pessoa é, e sim o que ela tem. São esses os valores que queremos ensinar aos nossos filhos?

É preocupante esta forma de organização social que deixa para as novas gerações o ensinamento de que devem ser consumidoras vorazes, ter mais brinquedos do que uma escola tem em seu acervo, mais sapatos do que poderia calçar uma sala de aula inteira, ter sempre além do necessário e estar permanentemente insatisfeitas por não terem o mais novo lançamento. Preocupante porque, dentro dessa lógica, a necessidade de ter muitas vezes ocupa o espaço de estar com as pessoas e compartilhar momentos de lazer, como apreciar uma bela música, caminhar em um parque, ler um bom livro, visitar museus e bibliotecas públicas da cidade, preparar seu próprio alimento, aprofundar uma brincadeira, ocupar o tempo com o ócio de uma boa rede...

Mesmo que estejamos conscientes de que o consumo exagerado é insustentável, o fato é que ainda estamos longe de vislumbrar um modelo diferente de sociedade. Por que será que grande parte da população brasileira tem como principal referência de lazer para si e para seus filhos os shoppings centers?

Cada vez mais o espaço do lazer e do brincar fica relacionado ao consumo, e por trás disso, educando gerações inteiras, está sempre a mensagem subjacente de que para interagir com o mundo se deve comprar, comprar e comprar. Mal aprendem a falar e a frase “mãe, compra…” já faz parte do repertório. Logo cedo aprendem, inclusive, que há mecanismos sociais criados justamente para favorecer a compra: “não tem dinheiro… então usa o cartão de crédito!”. E as crianças vão crescendo embaladas por este forte apelo consumista.

Pode-se dizer que a organização atual da sociedade gira em torno desse apelo. Basta ver a quantidade de propagandas direcionadas às crianças: comerciais e embalagens de produtos cada vez mais convidativos, lançamentos cuidadosamente pensados para seduzí-las e vincular mais profundamente o desejo e o prazer ao consumo. Nessa perspectiva, não é exagero afirmar que os anunciantes veem seus filhos mais como potenciais compradores (ou influenciadores da compra) do que como crianças que têm o direito de brincar, aprender e desenvolver sua afetividade num meio livre de ostentação.

Para concorrer com esse bombardeio apelativo ao consumo veiculado pela mídia, há que se mostrar a elas caminhos mais interessantes do que o prazer fácil e fugaz do consumo. Procure formas de refletir e atuar contra isso se não deseja que seus filhos sejam presas fáceis deste modelo de vida que os consome. Sim, porque este modelo consome o tempo de ser criança e, sobretudo, de experimentar mais das relações humanas do que das relações mercadológicas, como bem mostra o lúcido documentário “Criança, a alma do negócio” de Estela Renner.

Dizer “não” em alguns momentos não é simplesmente frustrar seus filhos, é cuidar da sua saúde psíquica, é dar limites. Todos nós precisamos de limites para nos desenvolver. O limite é essencial à nossa constituição mental e física. Sem o limite da pele seríamos uma massa amorfa; sem o limite na ingestão de alimentos, nos tornamos obesos; sem o limite da consciência social e da cidadania tornamos a Terra um local de entulho, lixo e toda a sorte de descartáveis; e assim por diante.

Hoje, mais do que nunca, nós e a geração recém-chegada ao mundo devemos nos perguntar do que realmente precisamos para viver, não só para poder ter uma passagem plena e culturalmente rica pela vida, mas também para não banalizar a própria existência, que não se limita à riqueza material. Afinal, quanto maior a riqueza material, menor a riqueza de nossas reservas naturais. É mais do que sabido que se todos os habitantes da Terra consumissem de forma semelhante aos habitantes de países desenvolvidos (como os Estados Unidos) precisaríamos de pelo menos quatro vezes mais planetas para atender a todos.

Ao contrário do que pode parecer, a alternativa não é negar o consumo, afinal dependemos dele para viver. Sem consumir alimentos não vivemos, sem consumir roupas passamos frio, sem consumir combustível não nos deslocamos com facilidade por grandes distâncias. O importante é olhar criticamente para tudo o que é excesso. O problema é que em geral o consumo está desvinculado da necessidade real. Será que para brincar e se divertir seu filho precisa mesmo consumir?


(trecho de uma das matérias "Dicas de consumo consciente em família" que escrevi para o site http://www.akatumirim.org.br/)  /   Colagem: Carlos Dala Stella)




4 de mai. de 2012

Arte e Jogo em debate e fruição


Conversas sobre a imaginação, processos criativos e lúdicos

Com
Monique Deheinzelin (autora dos livros Conhecimento de si, conhecimento do mundo - / Ed.Hedra Educação e A Fome com a vontade de comer - Ed. Vozes)
e
Adriana Klisys (autora dos livros Quer Jogar? Edições SESC SP e Ciência, Arte e Jogo - Ed. Peirópolis)

Dia: 26 de maio
Das 10hs – 13hs
Para: profissionais da educação e interessados no assunto

( Inscrições  no site: www.caleido.com.br)





26 de ago. de 2011


[Clique no cartaz para ampliá-lo]

Mais um cartaz feito por Carlos Dala Stella para divulgação de lançamento do livro Quer Jogar? em Curitiba.

"O pelele - registrado em 1791-1792 na tela El pelele, de Francisco Goya, é um exemplo de transformação da brincadeira no tempo. Na Espanha, esse jogo, originariamente para adultos, consistia em vários participantes esticarem uma lona sobre a qual uma pessoa era arremessada ao alto. Com o tempo, um boneco de pano tomou o lugar da pessoa arremessada, e as crianças começaram a participar. No Ártico, os inuits fazem uma brincadeira semelhante, chamada nalukatok. Em vez da lona, usam pele de leão-marinho para lançar o participante a uma altura de até sete metros, o desafio é cair de pé na pele esticada pelos demais jogadores. O participante dá continuidade aos saltos, até que não consiga mais cair de pé. Pelele e nalukatok devem ser precursores da cama elástica!"

Trecho do livro " Quer jogar?" de Adriana Klisys e Carlos Dala Stella, edições SESC SP



20 de ago. de 2010

Ciência, Arte e Jogo

[Clique no livro p/ ampliá-lo]

Este livro é fruto de 18 anos de trabalho, diretamente ou indiretamente em sala de aula, recheado de alegrias compartilhadas com crianças e adultos, muitos sabores culturais e saberes lúdicos (lúcidos!) . A capa do livro, feita por Carlos Dala Stella, com a escultura brincante de Juliana Bollini , dá as boas-vindas para as muitas imagens que se mostram ao folheá-lo.

Boa leitura e apreciação!

obs. O livro está na Bienal do Livro no estande da editora Peirópolis



24 de mai. de 2010

Substância Lúdica na Vida Adulta


[foto de Joel Rocha]

Esse desenho, de um conjunto de 98, de Carlos Dala Stella faz parte do livro QUER JOGAR? - mote para a TERÇA LÚDICA de amanhã, 25.
A seguir, 2 textos que escrevi, usados para divulgação junto à imprensa das Terças Lúdicas.

Brincar, brincar e... Brincar!
As Terças Lúdicas na vida adulta.


As Terças Lúdicas são vivências estéticas, criativas e culturais permeadas de um toque sutil de brincadeira para adultos que não querem esquecer o lado inventivo da infância.

Estes encontros pelo brincar são destinados a todos os adultos que querem desfrutar de uma experiência lúdica: agentes culturais, empresários, artistas, profissionais liberais e toda gama de curiosos e desejosos de entrar no jogo. De periodicidade mensal, têm três horas de duração (19:00-22:00) e a programação se encontra no site da Caleidoscópio (www.caleido.com.br).

A cada encontro uma ou mais brincadeiras, jogos, brinquedos e artimanhas saem do baú, revelando o legado cultural e transformador deste processo, instigado sempre por um brincante profissional que tem na autoria de seu trabalho uma intimidade com o processo construtivo que é a brincadeira, este “compromisso descompromissado”. Comprometido consigo mesmo e descompromissado de cobrança alheia e por isso tão constituinte.

A Terça Lúdica é um espaço privilegiado para as pessoas que participam serem protagonistas e de alguma forma brincarem. Um espaço de vivência cultural, de encontro, sobretudo de criação. Não tem o caráter formal de um curso (de trabalho) e sim de convivência e troca mais informal (de jogo) que é a brincadeira.

Na Terça Lúdica o conteúdo principal é o brincar, um encontro pretexto para a brincadeira, e esta por sua vez, pretexto para conhecer. Uma interação brincante mediada por um assunto instigante alimentado por um domínio técnico e um saber cultural da especialidade do convidado, que é sempre alguém que tem autoria em seu trabalho, essa mesma autoria que acompanha uma boa brincadeira.

Silvina Martinez, arquiteta argentina, participante de uma das terças lúdicas, por ocasião de sua passagem pelo Brasil, comenta a respeito desta vivência: “não sabia que no Brasil se brinca tão a sério!” Sua fala nos remete ao verdadeiro papel da brincadeira, que é convocar a melhor inspiração dada por uma situação de escolha e vontade de participar de uma atividade por sua gratuidade, sem fins utilitários imediatos. Não é à toa o envolvimento de uma criança em sua atividade lúdica, não é à toa o arrebatamento do adulto que se permite participar de atividades lúdicas!

Os assuntos das Terças Lúdicas, sejam eles relacionados ao campo do universo dos jogos propriamente ditos, ou das artes, da cultura, são pretextos então para brincadeiras, para estar junto, para interagir tanto com outros quanto com o conhecimento. Pretexto para estabelecer vínculos.

Estes encontros são para celebrar vida e por isso mesmo cuidamos da recepção com duas mesas bem servidas, uma de alimento físico com quitutes e outra com alimentos culturais, composta com livros, jogos, brinquedos e/ou materiais que tenham a ver com o assunto da Terça. Às vezes a mesa de alimentos culturais se estende para a parede em forma de projeção de slides ou filmes que tenham a ver com o assunto. Este tempo de receber os convidados já faz parte da proposta e do entrosamento do grupo.

Depois deste aquecimento iniciamos com uma breve apresentação da proposta e conteúdo através de fala, dinâmica, vídeo ou apresentação de slides. Na seqüência, temos propostas práticas onde todos coloquem a mão na massa, possam criar, brincar, se movimentar, cantar... Isso a depender da proposta, claro! Parte do que aconteceu nas terças lúdicas até então pode ser conferido no blog da Caleidoscópio, através do site www.caleido.com.br

Este trabalho que completa seu nono mês de vida e que já ganhou muitos adeptos e até convite para o registro da experiência em livro nasceu da idéia de criar um espaço de se sonhar com o universo de possibilidades que é a brincadeira, com um futuro mais brincante! É por isso que começamos desde já, no presente, a brincar, a sonhar.

Quem quer entrar na brincadeira, seja muito bem-vindo(a)!

Adriana Klisys


Idealização da Terça Lúdica

As Terças Lúdicas nasceram da idéia de convidar adultos a jogar. Um convite a se deparar com a inventividade do universo lúdico.

A brincadeira é pouco presente em empresas, ambientes de trabalho, na sociedade como um todo e até mesmo em lugares onde deveria existir com força, como nas escolas. A meu ver isso ocorre devido à valorização da produtividade (trabalho) em detrimento do processo (jogo). Por isso a escolha intencional de criar um espaço informal de jogo, mobilizar gente grande para a riqueza do universo de gente pequena.

Brincamos pouco na vida adulta por conta de demandas e afazeres, isso somado a termos uma sociedade pautada no consumo e na produção. O jogo é um caminho diverso da produção, é o caminho do processo, da gratuidade da experiência, do ócio e do desfrute.

Uma sociedade que se quer mais criativa poderia dosar melhor momentos de jogo e trabalho, processo e produção e criar espaços lúdicos coletivos para todas as idades.

A sociedade se desenvolve, mas em matéria de ludicidade se atrofia. Brincamos cada vez menos porque deixamos de investir no que corresponde à substância lúdica na vida adulta que poderia dilatar mais nossa experiência sensível no mundo.

A idéia de promover as Terças Lúdicas nasce da observação de que vamos deixando de lado nossa natureza lúdica, somada a esta constatação a minha própria experiência pessoal e profissional na Caleidoscópio Brincadeira e Arte que partilho a seguir.

Em primeiro lugar retomar a brincadeira na vida adulta há tempo faz parte do meu trabalho de formação lúdica de educadores. Logo percebi que a teoria do brincar não funciona se não é colocada lado a lado com a prática. Os convites constantes feitos a grupos de adultos para brincar, construir brinquedos e jogos, me ensinavam que isso alargava tanto a experiência criativa deles como a minha, passando a virar metodologia de trabalho tais chamados para o jogo.

Um segundo aspecto que motivou a criar a Terça Lúdica foi a observação que o mundo do trabalho tem se distanciado do aspecto lúdico e criativo. Tal percepção se tornou mais apurada quando desenvolvi uma proposta lúdica para filhos de funcionários da Hedging-Griffo, uma empresa ligada ao mercado de valores. O trabalho consistia em levar filhos de funcionários a conhecerem o universo de trabalho dos pais e proporcionar-lhes uma vivência lúdico e cultural. Ao realizar tal proposta deparei-me com a questão oposta: eram os pais que precisavam olhar mais para o rico universo dos filhos. Isto me fez pensar em criar brinquedotecas dentro de empresas. A idéia não foi para frente, mas… no lugar surgiu a Terça Lúdica, que é oferecida, inclusive a empresas.

Uma terceira experiência pessoal também me motivou à fazer as Terças Lúdicas: a constatação que meu próprio trabalho voltado à temática lúdica precisava ser mais permeado pela brincadeira.

Por ocasião de um trabalho de formação lúdica para toda a equipe de apoio da Rede de escolas da Prefeitura de São Paulo me deparei com um grupo de trabalho maravilhoso, dentre os quais: Chico dos Bonecos, Cyrce Junqueira e Renata Meirelles que me convidaram a brincar seriamente. Dos encontros para planejar as propostas lúdicas para a rede pública, surgiu nesta equipe a questão que deveríamos aproveitar o potencial do grupo de brincantes ali presentes para nos divertirmos com as brincadeiras propriamente ditas. Planejávamos o brincar, mas não brincávamos?!

Renata Meirelles foi quem primeiro apontou essa incoerência e propôs ao grupo de brincantes algo muito óbvio que seria brincar e não só planejar a brincadeira. Passamos então a nos reunir para brincar e dali a pouco o espaço da brincadeira se tornou maior que o planejamento e isso alimentava e animava numa escala muito maior o próprio planejamento.


Com estas experiências de vida acumuladas comecei a vislumbrar que gostaria que meu próprio trabalho fosse um espaço para cavar o direito de brincar na vida adulta. E como toda boa brincadeira não é imposta, mas é um convite, pensei em estender este convite justamente para a parcela da população que se encontra mais afastada desta experiência. Afinal, o direito de brincar não deve ser exclusividade do universo infantil.


A brincadeira é um convite a toda idade. Todo profissional que trabalha com criação deveria brincar mais e, neste sentido, todas as áreas do conhecimento sem exceção envolvem a criação.

O trabalho criativo tem muito a ganhar com a possibilidade de brincar, de imaginar possibilidades, de se por a disposição, como fazemos numa brincadeira, sem saber ao certo o rumo a tomar.

O estado da brincadeira de não controle absoluto da situação, de não saber exatamente para onde ela vai é justamente a sua riqueza. Abre caminhos inimagináveis, justamente porque o imprevisto é condição da brincadeira. O imprevisto, em certo sentido é infinito, ao contrário da previsto, finito em possibilidade.

Uma sociedade menos exclusivista poderia compor melhor o imprevisto, que é a brincadeira, com a previsibilidade. Vivemos num mundo altamente previsto. onde há previsão econômica, previsão do tempo, de colheita, de tudo o que se pode imaginar. A brincadeira é um espaço completamente oposto a isto, onde nada está previsto de antemão, e por isso mesmo ganha a dimensão ampla do desconhecido, daquilo que pode vir a ser.

10 de mai. de 2010

Brincadeiras de ontem


Minhas lembranças de infância são da época desta foto. Na praia - sol, som do mar, água salgada, o fascínio pelas conchinhas e castelos de areia! Combinação de areia e água do mar solta em punhados, formando estalactites maravilhosas! Enterrar o pé na areia... Sensações boas como misturar tinta com as mãos, ou brincar no balanço ao sabor da brisa.

Cheiro de cimento quente sendo refrescado pela chuva fina: prenúncio de boas brincadeiras! Claro! Os banhos de chuva só nos eram consentidos quando acompanhados de sol. Chuva e sol: casamento de espanhol! E para alegrar ainda mais nossa existência naqueles dias, não podia faltar sabão em pó no chão para lavar qualquer preocupação, e para deslizar no quintal de casa.

E o arco-íris da cidade da garoa, então! Presente dos guardiões do pote encantado! Assim como tirar a sorte no tocador de realejo!

Todo o tempo do mundo para inventar formas nas nuvens!

Os amigos da vizinhança! Era sempre uma festa boa brincar com eles! Brigas? De vez em quando: “tô de mal, come sal, na panela do mingau, deixa um pouco pro natal!”. E para “ficar de bem” novamente era só unirem-se os dedos, sem complicações.

Meu interesse absoluto, objeto de desejo: o baleiro da mercearia! Não sei se mais pelo conteúdo ou por poder girá-lo como um grande brinquedo de adulto com recheio para crianças!

Sempre gostei de experimentar as coisas, ter opções de escolha: de que maneira vestir as bonecas, quais cores de canetinha usar, qual coleção fazer – papéis de bala ou figurinhas.

Eram, e ainda são, tantos os interesses... O que mais recordo dessa época de pouca idade e muito conhecimento, sem dúvida, é a vida vivida com toda força e intensidade. Fazer uma coisa de cada vez e curtir absolutamente o momento. Desfrutar o algodão doce do começo ao fim! Sentir sua textura, delicadeza, deixar grudar na mão, enrolar nos dedos e depois lambê-los e experimentar nuvens de açúcar puro dissolverem-se lentamente na boca.